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Diálogos do Conhecimento: conversamos com o cardiologista Cláudio Domênico sobre qualidade de vida

23.Ago.2019

Parece que faltam horas no dia para tantas atividades. E, no meio de trabalho, casa, estudo, lazer, filhos, está a nossa saúde. O que estamos fazendo agora para ter um futuro mais saudável? Quais são os desafios que o mundo contemporâneo e a era digital trazem para a prevenção de doenças?

Para estimular a reflexão sobre temas atuais, estamos promovendo para nossos colaboradores momentos de conversa com especialistas externos, na série de palestras "Diálogos do Conhecimento". São nomes de referência em suas áreas de atuação, como o médico cardiologista Cláudio Domênico, que conversou com a gente sobre prevenção de doenças e qualidade de vida no século XXI.

O que podemos fazer para ter uma vida com mais saúde?

Cláudio Domênico: Há um velho ditado popular que diz: prevenir é o melhor remédio. Mas nós não fazemos isso tanto quanto deveríamos. Por que a gente age assim? Por que até um médico, que tem o conhecimento, fuma, é sedentário ou obeso? A verdade é que apenas o conhecimento não muda o comportamento do ser humano. E esse comportamento inadequado faz com que muitas vidas se percam por doenças que poderiam ser evitadas, seja por parar de fumar, seja por emagrecer, seja por fazer exercícios. Existem assassinos silenciosos, como esteatose hepática (gordura no fígado), sobrepeso, pressão ou glicose altas. É muito difícil mudar o comportamento de uma coisa que não traz sintomas ou gera prazer para a pessoa, como o efeito da nicotina quando chega ao cérebro em apenas quatro segundos.

Como mudamos esse comportamento então?

CD: Para estimular as pessoas a adotar hábitos mais saudáveis, é necessário trabalhar com recompensa, punição ou educação. A mais importante começa na infância. O filósofo Pitágoras dizia “educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos”. Se o seu filho diz que não gosta de ler, pergunte-se quantas vezes o levou na livraria, quantas vezes leu junto com ele, ou o presenteou com um livro. Tem pais que dão fast food para a criança como recompensa por fazer o dever de casa, e depois, quando o filho chega aos 15 anos, tentam retirar esse tipo de alimento que antes era oferecido como prêmio, como algo positivo. Essa mudança deixa a pessoa confusa.

E para quem já passou da infância?

CD: Outra maneira são as campanhas educativas, como o Outubro Rosa, do câncer de mama, e o Novembro Azul, do câncer de próstata.  Por vezes, também é importante e necessária algum tipo de punição, que pode ser financeira. O "órgão" mais sensível do corpo humano é o bolso, e um exemplo disso é a Operação Lei Seca. As pessoas deixam de beber e dirigir para não receber uma multa, para não ter a carteira suspensa. Estudiosos acreditam que a  obesidade chegou a um ponto no mundo que faz com que seja necessária uma taxação dos alimentos menos saudáveis. Isso já acontece nos países nórdicos, onde o valor arrecadado com essas taxas é revertido em subsídios para alimentos mais saudáveis.

Mas e se a pessoa não tem tempo ou dinheiro para ir à academia, como faz?

CD: O que conta é o estilo de vida. Há pesquisas que revelam que, no Brasil, quem tem renda mais alta faz, em média, menos atividades físicas em comparação com pessoas com menor renda. Por exemplo, uma auxiliar de enfermagem que ganha pouco, tem dois ou três empregos, sai de casa às 5h da manhã, para trabalhar de 7h às 19h, e chega em casa às 21h, não tem como frequentar uma academia, mas tem uma vida ativa. No geral, determinantes sociais, como doenças causadas por falta de saneamento básico ou vacinas, afetam pessoas de renda mais baixa, enquanto o estilo de vida é o responsável pelas doenças dos mais abonados.

São tantas opções gostosas de comida, nem sempre saudáveis, como resistir?

CD: Vivemos em uma sociedade que nos leva a um estilo de vida tóxico, mas somos responsáveis por nossas escolhas, sejam bons hábitos ou maus hábitos. Nós esquecemos o significado da palavra renunciar. Se vamos em um restaurante, podemos escolher entre comer um pudim ou uma rodela de abacaxi. Um é mais gostoso, mas o outro é mais saudável. A escolha de um implica na renúncia do outro. Não tem solução mágica: para ter comida saudável, você tem que cozinhar e consumir menos produtos industrializados ou refeições entregues em casa. A gente vive em uma sociedade que desembrulha mais e descasca menos. Tem que ser o contrário.

Essa doença corre na família, não adianta fazer nada...

CD: Será que o que causa isso é o lado genético e hereditário? Ou seriam os determinantes sociais ou o estilo de vida tóxico que a gente leva? Tem gente que fala que tem uma genética ruim. Dizem: se meus pais tiveram doença cardíaca ou câncer, para que eu vou me cuidar? O descobridor da estrutura da molécula de  do DNA, James Watson, tem uma frase muito interessante: predisposição não é predeterminação. Se a pessoa tiver um estilo de vida saudável, fizer exercícios, controlar seu peso, pressão e açúcar, por exemplo, ela pode interferir na expressão genética do seu DNA. A epigenética, que é a influência do meio ambiente no corpo humano, funciona.

Quais são as principais causas de doenças no mundo?

CD: Enfrentamos três grandes problemas que custam US$ 1 trilhão por ano para a economia mundial: tabagismo, obesidade e poluição. O tabagismo, no Brasil, deu uma estacionada após as proibições de fumar em lugares fechados e de propaganda do cigarro. A obesidade, por sua vez, cresce no mundo inteiro e no Brasil. No entanto, a poluição é o principal fator de risco cardiovascular. Um estudo recente mostrou que, para compensar os efeitos de cinco cigarros por dia - e isso afeta até os fumantes passivos - seria necessário uma hora no transport [aparelho para exercícios aeróbicos]. Em Londres, o órgão que cuida do transporte urbano determinou que, até 2040, 80% dos deslocamentos terão que ser feitos em conduções coletivas, como ônibus e metrô, complementando com o uso de bicicletas ou caminhadas. Quem quiser andar de carro no centro da cidade, por exemplo, terá que pagar uma taxa cara, que irá subsidiar o transporte público.

Como podemos prevenir doenças cardíacas?

CD: Os principais fatores de risco para o coração são hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto, sedentarismo, obesidade, sobrepeso e tabagismo. No entanto, também temos que considerar fatores comportamentais e emocionais, uma vez que esses vilões tradicionais não explicam todos os problemas cardiovasculares. É importante saber como a pessoa está na sua vida, no seu trabalho, se é ansiosa, perfeccionista, centralizadora, competitiva ou isolada socialmente. Temos que nos preocupar com o corpo – exercícios, pressão e colesterol em bons níveis– mas também temos que nos preocupar com a saúde mental. É como a citação do poeta romano Juvenal: Mens sana in corpore sano. Uma mente sadia em um corpo sadio.

O que é importante para uma boa saúde mental?

CD: Estamos vivendo em um mundo com muitas pessoas com depressão. O objetivo principal de qualquer ser humano é ser feliz. E essa felicidade nunca será completa, nunca será plena, mas os meios digitais passam uma imagem diferente da real. Ninguém publica uma foto em que esteja chorando em um dia ensolarado na praia. E aí as pessoas ficam com a ideia de que o mundo inteiro, menos elas, está feliz, o que não é verdade. A era digital trouxe novas doenças, como a nomofobia [no mobile phone phobia, medo de estar desconectado], o FOMO [fear of missing out, medo de estar por fora], crackberry [dependência eletrônica] e a demência digital. Não podemos nos privar da era digital, mas temos que tomar cuidado, ter um equilíbrio.

Como mecanismo de blindagem desse estresse gerado pela era digital, podemos desenvolver amizades. As boas relações sociais são fundamentais para o ser humano. Também temos que ter hobbies, prazer e uma vida com propósito. Outra coisa é fazer uma atividade física que gostemos, como dançar, pedalar, jogar futebol ou tênis. Ter uma espiritualidade ou religiosidade, não importa qual, ajuda a blindar o estresse. Fazer trabalho voluntário, como ler para cegos ou frequentar casa de idosos, por exemplo, também traz felicidade para quem pratica a ação. Atualmente se acredita que, além de hábitos alimentares saudáveis e atividades físicas, vai viver mais quem tiver propósito, boas conexões sociais, otimismo e bom humor.

Por fim, como as empresas podem ajudar seus funcionários a mudar o estilo de vida e adotar hábitos mais saudáveis?

CD: Quando falamos em prevenção, temos que avaliar o estímulo dado por meio de exemplos, de liderança. Se uma empresa como a Petrobras promove diálogos sobre prevenção de doenças, com presidente e diretores participando desse momento, é uma forma de dar o exemplo. O fator fundamental para mudar o comportamento de outro ser humano começa com uma boa escuta. Temos que ouvir as pessoas, saber se elas estão felizes com o ambiente de trabalho e perguntar o que pode ser feito para melhorar, com ética e transparência. Iniciativas simples como parcerias com academias ou campanhas de vacinação são exemplos de ações efetivas. Um acompanhamento individual personalizado, feito pelo departamento médico da empresa, pode identificar fatores de riscos e ajudar na prevenção.

Cláudio Domênico é graduado em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mestre e doutor em Cardiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e possui MBA em Saúde (UFRJ - COPPEAD). Autor do livro "Te Cuida! Guia para uma vida mais saudável", é especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, com conexões também nas Sociedades Americana e Europeia de Cardiologia.