Pedro Belga diz: Descobri o segredo da felicidade. Eu hoje recebo salário para ajudar os outros. É muito doido. A Guardiões do Mar virou na verdade um grande guarda-chuva. Nós somos uma incubadora de empreendimentos sociais.
Conceição da Silva diz: O que melhorou? Saí do sol, saí da chuva, saí do frio, saí das humilhações e melhorou bastante minha renda. E no fim ter mais dinheirinho na minha mão.
Marileda da Silva diz: Eu não sabia costurar e nem tinha dom para a costura. E hoje eu costuro, faço uma bolsa, faço uma mochila. O meu lar entendeu?! Porque eu adoro isso aqui. Adoro, adoro mesmo, de coração.
Pedro Belga diz: E não é só encubar administrativo e personalmente cooperativas oriundas da economia solidária. É o foco de entender que você precisa gerar emprego e renda. A gente percebeu que havia muito interesse das pessoas, conhecer a Baia de Guanabara em saber mais. E a mídia tinha um foco que a Baia de Guanabara tava morrendo, né? E aí nós falamos: “não, vamos mostrar para todo mundo que ela não tá morta, que ela vai morrer se agente deixar ela abandonada.” E aí foquei na Ilha de Taoca, onde tinha uns catadores. E comecei a fazer trabalhos com eles, meio que totalmente voluntário, embora já existisse a Guardiões do Mar. E aí a gente percebeu que eles eram muito desorganizados, então a gente começou a ajudar nessa organização.
Conceição da Silva diz: A mais de cinco anos eu era catadora, ficava assim na rua. Eu comecei porque eu era casada há oito anos, aí nosso casamento de oito anos acabou. Eu não trabalhava porque ele nunca deixou eu trabalhar. Fiquei com problemas de saúde porque perdi dois filhos. Eu sem renda nenhuma ficou muito difícil. Eu falando com a vizinha ela disse: “porque que você não começa a vender as coisas para o ferro velho?”
Marileda da Silva diz: Para recuperar eles separam, porque as garrafas não podem ser amassadas, né? No fundo tem que ser direitinha. O caminhão deles mesmo trazem aqui para a gente. Aí a gente lava as garrafas, faz o pufe. Sabe quantos pufes a gente faz por dia? A gente faz na base de cinqüenta pufes por dia. Lindo!
Pedro Belga diz: A gente não tem noção do número de pessoas hoje que são atendidas por esse trabalho. Existe uma mobilização que são mais de cento e dez associações e sempre com a idéia de que juntos eles são mais fortes né?! Estimulam muito a idéia de associação.
Conceição da Silva diz: Uma catadora de sonhos. Catação é um sonho que eu tô tendo. Com o passar do tempo tô chegando a conseguir as coisas que eu quero, aos poucos.
Pedro Belga diz: Até que um dia um catador, ele, chega para mim e fala assim: “pô, você anda aí nos mangues com a gente, tá tudo sujo aí desse lixo que vem com a maré. Porque a gente não faz uma faxina no mangue?” eu falei: “pô, faxina no mangue! Isso é loucura, loucura isso!” Aí comecei a estudar aquela história e saiu um projeto chamado “Operação mangue limpo”. Eles faziam a coleta do material com sacos e tal, traziam para fora do mangue. Daí começou todo esse trabalho de... fazer a preservação mexendo no bolso. Não adianta você chegar pro cara: “olha, você tem que preservar o mico-leão-dourado” se o cara ta passando fome. Mas quando você envolve esse indivíduo na questão ambiental, de uma forma de que ele seja remunerado por isso, ele passa a ser o seu parceiro e o seu agente ambiental na integra, na totalidade.
Marileda da Silva diz: E agora eu tenho uma renda que me satisfaz.
Pedro Belga diz: A gente percebeu que isso era um viés. E a gente já tinha essa história de fazer eventos. A gente conheceu vários artistas plásticos que transformavam lixo em algo luxuoso, em arte. Então essas senhoras, esposas de catadores, esposas de pescadores, que estavam ali dentro morando no manguezal, às margens da Baia de Guanabara, elas percebem que o papel poderia virar a massa, que poderia dar forma a um bonequinho, que poderia ser vendido como brinde social. Você aumenta a quantidade de produtos ou de resíduos que não vão mais para o ambiente. Você aumenta a qualidade de vida dessas pessoas, gera trabalho e renda, e ao mesmo tempo você devolve à sociedade em melhor qualidade ambiental e melhor qualidade social. As pessoas passam a se tornar de novo consumidoras, resgatam a sua estima e ao mesmo tempo coisa que se trabalha também é o núcleo familiar. Então, nós administramos cooperativa? Sim. Mas também administramos vidas.
Marileda da Silva diz: Nós fizemos cento e quinze pufes. Quantas garrafas nós tiramos daí do nosso planeta? Três mil e duzentas garrafas. Então isso aí é mais gratificante, muito, muito mesmo.
Pedro Belga diz: Hoje enquanto eu divido deitar a cabeça no travesseiro e pensar nas donas Conceições da vida, nas Mariledas da vida, nas donas tchutchucas da vida, sou muito feliz. Eu acho que... eu não poderia fazer outra coisa.
Marileda da Silva diz: Saiu bom?
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